José Carlos Affonso Ferreira

Nasceu em Campinas/SP, em 21 de fevereiro de 1932, 13º integrante de uma família de 15 filhos; pai, avô, tio paterno e cinco rmãos médicos. Fez todos os seus estudos em escolas públicas, em Campinas: Escola Normal Carlos Gomes, Ginásio Estadual Culto à Ciência, e Faculdade Nacional de Medicina, na Praia Vermelha, RJ, formando-se em 1956.

Se casou em agosto de 1956, com Maryse Amorim Villela, filha e irmã de médico. Mesmo antes da colação de grau, iniciou a residência em ortopedia nos EUA. Na época, as residências formais eram raríssimas ou inexistentes no Brasil. Seu pai, formado no RJ, em 1900, fez estágios em Cirurgia e Otorrinolaringologia em vários hospitais,=, na época considerados como non plus ultra, em Paris e Viena, onde morou por 8 anos — ele contava muitas histórias de Viena, o que deixou ótimas impressões e desejo de seguir o exemplo paterno. Antes da Residência Ortopédica havia necessidade do Internato, que foi cumprido, no Methodist Hospital em Peoria, Illinois, onde aprendeu inglês. O salário de interno era de US$ 89/mês e, casado, tinha dificuldades financeiras, o que era compensado pelo trabalho da sua eterna namorada Maryse, em traduções do português, espanhol e francês para o inglês. Iniciou a residência no St Francis Hospital, University of Illinois, entre 1957 e 1961, após ter feito curso de pós-graduação de seis meses, na New York University, em 1959, onde estagiou no Bellevue Hospital NYU, no Sloan Kattering Memorial Hospital, em patologia óssea, e no Hospital for Special Surgery, famoso Centro de Ortopedia.

De volta para Campinas, em 1961, foi trabalhar no Instituto Penido Burnier fundado pelo seu pai e pelo Dr. Penido Burnier, onde as sequelas de poliomielite eram na época muito numerosas. Durante sua residência aprendeu e operou inúmeros casos com transposições tendinosas, correção de contraturas, artrodeses, principalmente nos membros inferiores e também na coluna, na Casa da Criança Paralítica, em Campinas. Descobriu um veio importantíssimo na Santa Casa de Valinhos, onde irmãs católicas canadenses haviam se estabelecido há poucos anos e mantinham padrão de excelência, tanto nas enfermarias como no centro cirúrgico, local que trabalhou de 1961 a 1976 e depois de 1990 a 1996.

Foram operados inúmeros casos ortopédicos e traumatológicos sob sua tutela, o que atraiu a atenção de vários recém-formados, iniciando-se assim uma escola de ortopedia. Em 1963, fez parte dos primeiros ortopedistas da Faculdade de Medicina da recém-iniciada Unicamp, que funcionava precariamente na Santa Casa de Campinas.

Desde a sua juventude era aficcionado por basquete, tendo participado de inúmeros torneios, campeonatos regionais e paulistas, jogando pelos clubes campineiros Regatas e Tênis. Na época era considerado de alta estatura por ter 1,89 m. Durante a Faculdade, foi titular do time do Fluminense, sendo Campeão Carioca Aspirante, em 1951 e vários vice-campeonatos da Categoria Principal, perdendo apenas para o Flamengo, um time constituído por “profissionais“, enquanto seu grupo era formado, em sua maioria, por universitários. Em 1953, participou das Olimpíadas Universitárias Mundiais, em Dortmund, na Alemanha, ainda bastante danificada pela guerra. Seu grupo foi vice-campeão, perdendo apenas para os donos da casa. Por causa do desejo de conhecer Viena, abandonou o retorno das equipes para o Brasil junto com um amigo, filho de vienenses fugidos da guerra que havia participado da equipe de atletismo. Sem dinheiro, pegaram carona e atravessaram vários países até Viena, onde foram muito bem recebidos pelos parentes do Bubby e, mesmo com a pobreza evidente da região, foram empanturrados com appfelstrudel.

A visita de 15 dias na encantadora cidade confirmou o que seu pai dizia sobre o local. Voltaram a Londres e foram deportados pelo cônsul brasileiro, mas antes, trabalharam alguns dias na rede de televisão e transmissão pública mais antiga do mundo, a BBC, fazendo seleção de notícias do Brasil. Em agosto de 1967, ajudado pelo reitor Zeferino Vaz, conseguiu bolsa de estudos com duração de um ano, no Allgemeines Krankenhaus, na Universidade de Viena, berço da ortopedia na época, e para onde se mudou com toda a família: Ricardo (10 anos) nascido nos EUA, Patricia (8 anos) carioca e Isabela (6 anos) campineira. O sonho foi realizado. Foi um ano de preciosas memórias, aprendizado de vida e de ortopedia. De Viena, foi para Memphis, Tennessee, onde estagiou na Campbell Clinic, quando se relacionou com a “fina flor” da ortopedia americana.

De volta a Campinas, trabalhou na Clínica Lane, com seu irmão Augusto, recém-chegado de residência em Urologia na Clínica Mayo e Johns Hopkins Hospital (EUA). Em 1967, participou da visita idealizada pelo professor Marcondes, da USP em Ribeirão Preto, aos grandes centros ortopédicos do Reino Unido, quando oito professores das mais importantes faculdades do Brasil (São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre e Recife) foram recebidos. Nesta ocasião, visitou por 10 dias o serviço de John Charnley, dando prosseguimento ao seu interesse pelas Próteses Totais do Quadril (PTQ), doutorado em Ortopedia pela Unicamp em 1976, com a tese de Alongamento Ósseo pelo Método de Anderson. Trabalhou na Unicamp de 1965 a 1990. Fundou o Centro Médico de Campinas em 1974, iniciando a Técnica de Charnley para PTQ com osteotomia do grande trocanter e cimentação. Iniciou a residência em Ortopedia e Traumatologia reconhecida pela SBOT, em 1975. Presidente da Comissão de Ensino e Treinamento, entre 1982 e 1987, continuando como secretário executivo até 1993.

Nesta ocasião, uniu-se a colegas ortopedistas de alto gabarito e juntos revolucionaram o exame de obtenção do Titulo de Especialista, que ainda hoje é realizado nos mesmos moldes, servindo de exemplo para um sem número de outras especialidades no Brasil e na América Latina. Professor Titular da Faculdade de Medicina de Jundiaí entre 1977 e 1981; chefe do Departamento de Cirurgia e eventualmente do Departamento de Ortopedia da Universidade Católica de Campinas, de 1986 a 1995. Nesta ocasião, conseguiu criar uma enfermaria de ortopedia e ambulatorial da especialidade, abastecendo o centro cirúrgico com equipamentos de última geração, incluindo um C-arm, com ajuda de L. F. Kahl, CEO da Carborundum. As reuniões semanais do departamento eram frequentadas por muitos ortopedistas da região, residentes de outros serviços e alunos. Em 1981, criou o Instituto Affonso Ferreira (IAF), reunindo-se com ex-residentes, ex-alunos e seu filho Ricardo, todos com residência ou pós-graduação no exterior. Foi, desde então, um centro de ensino, continuando as reuniões semanais bastante concorridas com ortopedistas da região e residentes de outros serviços. A qualidade da residência era evidenciada com obtenção das primeiras colocações nos exames da SBOT.

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